O AMOR NA PADARIA


O garçom magrinho equilibrava a custo a bandeja quase cheia, com duas médias, um suco de laranja, meia dúzia de pães de queijo e um misto quente. 
Passava um pouco das 9 horas da manhã e pela porta aberta da padaria entrava um frio de rachar.
O garçom magricela tinha acabado de esvaziar a bandeja e fazia, no balcão, mais um pedido para o chapeiro.
Foi quando uma moreninha também magrinha, pequenina, cabelos curtos, bateu em seu ombro direito.
Ele se virou.
Ela estendeu uma blusa de lã verde escuro para ele:
- Trouxe para você vestir. Hoje está muito frio.
Ele a pegou e antes de vesti-la deu um rápido, um leve beijo no rosto da mocinha morena magrinha:
- Obrigado, amor.
Ela se virou e saiu para a rua, para a manhã fria.
Saiu para um sol pálido, para um dia de sonhos com o seu amado.

ANTES DE CAIR NO SONO


Só voltei a pensar nessa história do barulho que eu teria feito domingo no dia seguinte antes de dormir. Tive uma segunda-feira comprida e chata - meu trabalho é chato, tão chato que não vou falar para ninguém o que faço. Só digo que não vejo a hora de trocar de emprego - mas o que fazer? Burro velho não aprende...
Mas eu estava dizendo que à noite, na cama, naquela hora em que a gente fica completamente só, a alma parece que se desprendendo do corpo, indo para as lonjuras mais desconhecidas, foi que me deu um estalo: o Beto não podia ter feito o tal barulho, porque passou o dia fora, com o amigo do 21, qual é o nome dele mesmo? E chegou tarde, se me lembro às 10 horas, e logo depois foi dormir.
Então, antes de apagar nesse sono quase sem sonhos que me persegue há uns meses, fiquei com a certeza de que o barulho não veio do meu apartamento.
E isso, em vez de me tranquilizar, me atazanou ainda mais. Se não estivesse tão cansado, garanto que iria demorar a dormir por causa disso.
Dona Marta me acusou de uma coisa que não fiz. Vou ter de tirar isso a limpo. Mas como, se eu mesmo disse a ela, para me livrar de uma discussão espinhosa, que tinha pregado o retrato da Norinha na parede?
E quem foi que reclamou para ela das marteladas?
Dúvidas, interrogações, dilemas.
Quanta responsabilidade tem um homem que só quer viver em paz!
(Capítulo 2 da mininovela "Condomínio Feliz Cidade")

O SILÊNCIO VALE OURO

Recebi a notícia do Zé, porteiro da manhã, logo que ia saindo para trabalhar - deixo meu carro estacionado na rua mesmo e alugo a vaga da garagem, pois assim reforço o orçamento, o Uno ninguém vai querer roubar de tão velho que é:
- Dona Marta quer falar com o senhor.
Antes que perguntem, eu respondo: Dona Marta é a síndica do prédio. Viúva, mandona, mas nunca me incomodou. O que será que ela quer? Olhei para o relógio e vi que dava tempo para uma conversa:
- Liga para ela, Zé.
O Zé é meio esquisito, calado, mal dá bom dia para os moradores, mas é de confiança. Dizem que tem uma filha doente que cria sozinho - a mulher largou dele já faz uns dez anos. Mas isso é outra história.
- Dona Marta, tudo bem? Estou à sua disposição.
E ela me contou que havia recebido uma queixa - não disse de quem - sobre eu ter feito barulho, sei lá, como se estivesse martelando alguma coisa, no domingo - claro que o condomínio não permite isso. Achei estranho. A única coisa diferente que fiz no domingo foi pensar seriamente em arranjar outro emprego. Será que pensei alto demais?
Para não encompridar a conversa, pedi desculpas, falei que estava mesmo pregando um quadro da Norinha na parede (a Norinha é a minha filha, tenho um casal, o menino a gente chama de Beto), quase me convenci da mentira, dona Marta até que foi gentil, me passou um sermão leve e me desejou bom dia.
No caminho para o trabalho lembrei que o tal barulho bem que poderia ter sido obra do Beto - ele é o tipo de garoto capaz de surpreender a gente.
Mas confesso que não escutei nada.
Meus pensamentos falavam mais alto.
(Capítulo 1 da mininovela "Condomínio Feliz Cidade")

A QUINTA DA MANHÃ


Ficou surpreso com o ato de se abaixar e apanhar aquela margarida raquítica daquele canteiro sujo, abandonado e cheio de mato daquela praça sem vida e sem cor daquela cidade da qual não fazia mais a menor questão de lembrar o nome.
Estava só naquele momento.
E naquele instante, ao ver de perto a flor pálida e tão pequena, a margarida insignificante que oscilava sob aquele vento glacial de  fim de outono, julgou que já havia feito muito por todos, por si mesmo e, quem sabe até, por este mundo.
Porque pensou assim: eu sou capaz de olhar a beleza e não me emocionar, eu sou capaz de olhar a tristeza e não chorar, eu sou capaz de olhar para o céu e só achar que ele é uma imensa mancha acizentada.
Porque pensou assim, jogou fora a flor sem graça e seguiu andando no meio daquele canteiro tomado pelas ervas daninhas daquela praça perdida num canto qualquer, sem crianças, sem cães, sem brinquedos, nem gritos ou latidos.
Porque pensou assim, balançou a cabeça e atravessou a rua. 
Do outro lado, no bar da esquina, tomou a quinta cachaça daquela manhã.
Estava curado do desasossego.
Pelo menos por enquanto.

TRINTA ANOS DEPOIS



Não via o Beto fazia mais de 30 anos, desde que haviam completado o colégio - naquele tempo era assim que o segundo grau se chamava.
Mas se lembrava bem daquela manhã em que, defronte de mais de 40 moleques como eles - e algumas meninas também - trocaram sopapos na saída da escola. 
Levou um soco no nariz, que sangrou, mas ficou com a certeza de que acertou uns bons murros na cabeça do Beto, que, por ser maior que ele, permaneceu inabalado, como se não tivesse sentido nada.
Agora, olhava em volta, naquele salão meio escuro do bufê de festas onde a turma de 1981 do Instituto de Educação resolveu fazer o seu primeiro encontro tanto tempo depois, sabe-se lá por quê, preocupado em reconhecer o desafeto de uma adolescência desvanecida e de poucas boas lembranças.
O crachá espetado na camiseta fez com que muitos viessem cumprimentá-lo. Lembrava-se de alguns, outros eram meros nomes perdidos e sem importância.
Até que alguém bateu em seu ombro:
- E aí, cara? Mudei tanto assim?
Sim, tinha mudado. Estava mais gordo, quase careca, mas certamente era aquele Beto falastrão e metido a besta que o irritava na classe, no recreio, onde estivesse. 
Os dois se abraçaram.  
Mais gente chegou, o bufê foi ficando cheio, Beto pediu desculpas e disse que estava com pressa, tinha outro compromisso. Antes de ir embora, porém, puxou-o de lado:
- Sabe, naquele dia da briga? Pois é, aguentei firme, mas a minha cabeça doeu pra caramba. Se não tivessem parado a gente...
E foi embora, apertando mãos e abraçando quem via no caminho.

MANHÃ CHUVOSA E FRIA


Ao entrar no escritório onde exercia com rara habilidade a difícil tarefa de fazer sua mediocridade ser vista como um grande esforço em prol do sucesso da empresa, notou, incrédulo, naquela manhã chuvosa e fria, que alguns olhares se fixaram por instantes nele.
Pior, que algumas cabeças até mesmo se voltaram para sua mesa, quando se sentou e fingiu estar procurando papéis que não tinham nenhuma importância para aquele momento ou para qualquer outro, fosse qual fosse o futuro, trágico, cômico, ou simplesmente igual ao passado esquecido e ao presente ignorado.
Teve um estremecimento. Achou mesmo que de nada haviam valido todos aqueles anos de absoluta invisibilidade, e que, por fim, toda a mentira com que construíra seu intolerável cotidiano tinha sido descoberta.
Passou mal, sentiu o estômago se contrair, um calafrio correu sua espinha e chegou a suar, um suor gelado como aquela manhã fatídica.
Mas felizmente o sol voltou à sua vida quando Vandinha, a descolorida vizinha de mesa, puxou-o para a realidade ao dizer apenas uma frase, síntese do inesperado que a vida nos revela, resumo das nossas esperanças, ponto final dos nossos sonhos e dos nossos mais profundos pesadelos:
- Seu Alberto, acho melhor o sr. tirar o seu chapéu, que ele tá todo molhado e tá pingando no chão e pode estragar o carpete.  

SAUDADE


De longe tudo parecia um emaranhado de tecidos multicoloridos. Uma tela fantástica sem molduras nem limites.
Quando, porém, a vista se acostumou ao sol, quando percebeu que o chão cimentado se impunha ao idealizado verde dos gramados, quando, por fim, uma lágrima, apenas uma, escorreu no seu rosto vincado pelo tempo, foi que se deu conta que sentia saudade.
Muita saudade.
(Para sempre lembrar da amiga Denise Akstein)

TIQUE NERVOSO

Tinha um tique nervoso que cobrava seu preço a todo instante. 
A cabeça se levantava impertinente, sempre agredindo quem estivesse à sua frente. 
Era irritante como todo movimento que se planeja para não falhar.
Ou como um pêndulo que vai e volta e depois se atrapalha e se enrosca em seu próprio mecanismo.
Certo dia, porém, no desespero de se controlar, fez um esforço tal que sentiu todo o pescoço estalar.
Faíscas riscaram seu cérebro, pontadas dilaceraram sua nuca, e ele deixou escapar, numa vozinha atônita e ceifada de ar a sua sentença final:
- Puta que pariu, doeu pra caralho, mas nunca mais!
E daí em diante passou a girar a cabeça de lá para cá, de cá para lá, sem ter nenhuma vontade de parar.

ZÁS-TRÁS

Era pretinho, ficava nos cantos quieto, medroso, à espera da oportunidade, à mercê do desejo, da fome, os olhos brilhando como tições, o nariz caçando odores, a língua uma lixa seca, as garras recolhidas, prontas para virarem punhais.
Era pequeno, pretinho, quieto.
Nos cantos, quieto.
Até que um descuidado pardal desceu do galho e foi, inocente, bicar um pedacinho de pão mal varrido perto da porta da cozinha.
Bastou um segundo.
Um zás, um trás, um pulo no pátio inundado de sol.
E foi o bote de uma pantera, negra, imponente, sem cor definida, inundada de sol.
Era pretinho, quieto, pequeno.

TENTATIVA E ERRO


tento viver
nesta cidade escura
iluminada pelos
fracos raios de
uma pobre lua

tento viver
nesta cidade suja
banhada pelo
mar de dúvidas
dos cidadãos impuros

tento viver
nesta cidade surda
às emoções mais baixas
dos deuses feitos
de carnes flácidas

tento viver
nesta cidade nua
vestida para matar
a humanidade pouca
de minha garganta muda

A CARTA


Assim que pegou aquele envelope branco que estava no chão, perto da porta, Ana correu para o pai e perguntou:
- O que é isso?
Ele examinou o envelope, olhou frente e verso, abriu-o com cuidado, e depois tirou uma folha de papel de seu interior. Estava inteiramente escrita. Então, pegou o óculos e começou a ler, em voz alta:
- "Querida Ana: Talvez você não se lembre de mim, já que nos encontramos pela primeira vez na saída da escola."
Interrompeu a leitura e fez a revelação:
- Acho que isso é uma carta.
Ana perguntou:
- Carta? O que é uma carta?
Ele respondeu, inseguro:
- Antigamente as pessoas se comunicavam assim. Escreviam cartas umas para as outras. Pelo menos é o que meus pais me disseram...
Ana tirou o papel das mãos do pai:
- Deixa eu ver.
Um minuto depois, falou:
- Não sei quem é esse Bruno que assina essa "carta".
E completou:
- Deixa pra lá. Não deve ser ninguém. Nem tem e nem sabe usar e-mail.

FORA DO RITMO

Escolheu o cavaquinho porque tinha duas cordas a menos que o violão e, assim, poderia bastar para a música simples que pretendia tocar.
Mas logo percebeu que quatro cordas ainda eram demais.
Trocou o instrumento por uma insignificante caixinha de fósforos, que passou a batucar a toda hora.
Nem isso deu certo, pois saía facilmente do ritmo.
A vida não fluía como uma valsa, naquele três por três hipnótico e repousante.
Ao contrário, mudava de tempo sem avisar, acelerava, diminuía, tinha longas pausas e explosões súbitas.
Era imprevisível.
Então jogou fora a caixinha, torrou as economias num belo fraque e foi visto, pela última vez, com o braço direito erguido, aquele braço raquítico, a sustentar uma elegante batuta na tentativa inútil de pôr ordem no caótico trânsito da avenida onde morava.

ESCOLHAS

Entre a noite e o dia, preferiu as nuvens.
Entre o barulho e o silêncio, escolheu Bach.
Entre o alegre e o triste, danou-se a andar.
Entre o cão e o gato, comprou um pássaro.
Entre deus e o diabo, terminou um homem.
Entre a vida e a morte, porém, fez a opção errada
e se deu mal -
trabalhou tanto que esqueceu de se aposentar.

ENTRE UM SEGUNDO E OUTRO

Passou a mão no dicionário que estava abandonado havia vários anos no meio de Simenons e outros policiais mais abrutalhados.
Procurou avidamente nas páginas amarelecidas alguma palavra que expressasse o que sentia naquele momento.
Achou poucas. O suficiente para sentir que sua angústia tinha causa, que sua doença era humana.

Afasia
sf.
1. Perda total ou parcial da fala.
2. Med. Dificuldade total ou parcial de expressão ou compreensão da linguagem falada, escrita ou gestual, ger. provocada por lesão cerebral.
3. Fil. Abstenção de qualquer pronunciamento ou juízo sobre a verdade ou a falsidade de algo, com base na ideia de que o ser humano está limitado em sua percepção cognitiva.

Afonia
sf.
1. Med. Perda parcial ou total da voz (ger. reversível), por causa fisiológica (lesão em órgão do aparelho fonador) ou psicológica

Disartria
sf.
1. Neur. Dificuldade na articulação das palavras devida a paralisia de órgãos da fonação


Pegou então a caneta e escreveu os versos que achou que seriam capazes de lhe devolver um pouco da paz que certa vez experimentara:

nenhum som
nenhum gemido
nenhuma dor
nada a incomodar
só o calor e a umidade
como insetos pegajosos

nenhum remédio
pode aliviar
a falta de nuvens no céu

nenhum sorriso
pode apagar
a marca de pneu no asfalto

nenhuma esperança
pode devolver
a luz apagada no poste

tudo é silêncio em meio a um tempo morto

Depois, mais calmo, arriscou outro estilo, menos solene, mais travesso.
O sentido das palavras, porém, ainda era o mesmo:

o que for dito
será o dito pelo não dito
um dito
maldito


Foi dormir com a dor de garganta que o atormentava desde o início da semana.
Não teve um sono tranquilo, mas ao menos sonhou colorido.

NA PRAÇA


Era impossível alguém não notar a figura alta, magra, suja, repulsiva até, que andava de um lado para outro na praça, os braços se abrindo e fechando, a boca se mexendo, tentando formar palavras, frases, sons vagamente humanos.
E quando se aproximava de alguém e estendia a mão, parecia que quase não pertencia mais a este mundo.
- Passa fora, vagabundo - dizia o homem de terno escuro que carregava uma maleta.
- Não tem polícia em lugar nenhum desta cidade - reclamava a senhora bem vestida que apressava o passo.
- Mãe, ele tá bêbado? - perguntava o menino à bonita jovem de calça justa que o levava pela mão.
Um cachorro preto e feio acompanhava o pedinte. Língua de fora, seguia o mendigo por todo o lado. Até mesmo quando ele se sentou, talvez cansado, talvez apenas para esperar que um improvável sol viesse esquentá-lo naquela manhã.
Foi quando o animal se assustou com a buzina estridente de um enorme caminhão betoneira que tentava desviar de um minúsculo e inacreditável Fiat 147 que furou o semáforo vermelho.
O bicho disparou pelo gramado mal cuidado, passou por entre os carros estacionados, e o que se ouviu depois foi um só um ganido, um lancinante e doloroso uivo.
Ninguém na praça ficou indiferente. Todos correram para ver o que havia acontecido.
Assim, não perceberam quando aquela aberração vestida em trapos se levantou do banco e correu para longe da praça, para longe do mundo.
A boca se mexendo, as lágrimas escorrendo pelo rosto abaixo, grossas, salgadas.

CHICLETE E CAFEZINHO


A moça do quiosque de doces era ruiva, gordinha e simpática. Ela pegou os dois chicletes e antes de embrulhá-los, virou para o rapaz de camisa amarela que os havia comprado e disse:
- Nossa como você é parecido com meu noivo! É impressionante, não é? - perguntou para a amiga, morena e baixinha, vendedora da loja de roupas, que lhe fazia companhia naquele corredor quase vazio do shopping.
- É, sim, é muito parecido - disse a amiga.
Ele pagou os chicletes, pegou o troco, e antes de ir embora, perguntou para a moça ruiva, gordinha e simpática do quiosque de doces:
- Não casou ainda por quê?
- Ah, ele precisa se ajeitar. Está montando um negócio com os amigos, quem sabe daqui a uns meses...
- Bom, então eu desejo boa sorte - e foi andando devagar.
Resolveu tomar um café, mas antes olhou no caixa para ver se a loirinha que achava uma graça estava lá.
Afirmativo.
- Oi, por favor, um expresso puro - pediu.
Assim que ela lhe deu a ficha, tomou coragem:
- Olha, me desculpa, mas você é muito parecida com uma namorada que eu tive. É impressionante a semelhança.
- Nossa que coisa - ela disse.
- Será que é só coincidência? - perguntou.
Ela deu um sorriso e isso foi o bastante. Ficaram conversando até que apareceu um freguês. Ele prometeu voltar no dia seguinte para outro café. Ela disse que estaria esperando.
Ele foi embora pensando em que roupa ia usar. Tinha uma camisa verde novinha, pronta para ser estreada.

BOM DIA!


Pediu no almoço um bife mal passado
e uma cerveja escura estupidamente gelada.
No fim da refeição, um café expresso quente e forte.
Em casa, deu um beijo morno em sua esposa querida,
um tapa carinhoso na testa do filho tolo
e uma mordida na maçã ao lado da pera.
Dormiu com o gosto doce de um dia inteiro,
um longo dia frio de um outono cinza
que prenunciava outras tantas estações perdidas
no calendário inútil pregado atrás da porta da cozinha.
Acordou cedo e bebeu café com leite -
e se sentiu pronto para outra dura batalha.

SEM PARAR


Furava os semáforos vermelhos igual faca cortando manteiga.
Colava na traseira de quem ia na frente e piscava os faróis até passar.
Pegava a contramão com a inocência das crianças travessas.
Andava na faixa dos ônibus na cidade e nos acostamentos nas estradas.
Não suportava ficar atrás de carro nenhum.
Estacionava nas vagas para idosos no shopping.
...
Um dia comprou o Sem Parar e no feriado desceu para o litoral.
Excitado pela novidade, entrou no pedágio a quase 100 por hora.
Quebrou a cancela, quatro dentes e teve escoriações feias no braço direito.
Pior: trocou o capô, o para-brisa e os dois espelhos.
Mais a multa, levou um prejuízo de R$ 5 mil.
E enquanto o sol brilhava na Baixada, ele via na Globo o seu Tricolor perder para o Coringão.
Com dois gols do Ronaldo, o gordo Ronaldo.

FEITOS UM PARA O OUTRO

Ela era morena, com olhos amendoados, cabelos negros e corpo esguio como de uma gata, dona de um coração de ouro e uma alma de anjo, mas sua voz soava esganiçada, desafinada e irritante.
Não tinha sorte com os homens.
Ele era mais alto que o normal, loiro, magro e ansioso, gostava dos animais e das coisas simples, mas não podia apreciar nem a música nem o canto dos passarinhos, pois havia nascido surdo.
Não tinha sorte com as mulheres.
Num dia de chuva inesperada, os dois procuraram abrigo num bar que servia um café expresso honesto, mas um pouco caro.
Ao tentarem dividir o açúcar no balcão, suas mãos se tocaram e eles descobriram que haviam sido feitos um para o outro.

TUDO POR ELA

por ela
cortou o cabelo
fez a barba
e passou a escovar os dentes três vezes ao dia
por ela
comprou quatro camisas sociais brancas
duas calças cinzas
e um sapato marrom
por ela
trocou o rabo de galo pelo campari
a cerveja por um suco de laranja sem açúcar
e a feijoada pelo sushi
por ela
correu dez quilômetros numa chuva fina e fria
atravessou três sinais vermelhos na avenida sinuosa
bateu o carro seminovo no ônibus que virava a rua
a cem metros do prédio de grades azuis e jardim de gerânios
onde seu amor morava
por ela
desmaiou enquanto a sirene da ambulância irritava os raros fregueses da padaria recém-inaugurada
acordou na asséptica sala do pronto-socorro do velho hospital do bairro
e recebeu pinos de titânio no braço magro em que havia tatuado o nome daquela que seria a sua mulher
por toda a vida

VIAGEM PELO ARCO-ÍRIS


Falava pouco, ria menos e passava os dias a caminhar sozinho.
Certa vez choveu muito, até que as nuvens foram embora e o sol chegou.
E um enorme arco-íris atravessou a cidade de ponta a ponta.
Ele, que seguia distraído por uma rua estreita e íngreme, perseguiu as cores como um predador fareja a presa e assim andou, andou por horas.
Até que tropeçou num pote de ouro.
Rodopiou e caiu como um balão murcho no chão duro.
Foi uma queda e tanto.
Tão violenta que seu corpo se entregou ao cansaço e ele placidamente adormeceu.
Quando acordou, era noite e estrelas cadentes riscavam o céu.
Tantas e tantas que perdeu a conta de contá-las.
E ao amanhecer, com o cheiro da vida à sua volta, já havia se esquecido de onde estava.
Ou como chegara ali. Mas não se importou. O mundo começava, enfim, a fazer sentido.

A FILHA DO ZELADOR


A filha do zelador apareceu no jardim do prédio com o jeans novo que ganhou do pai no aniversário de 18 anos.
Foi na festinha, no salão do condomínio, que o Alberto, o moço que morava sozinho no 21, deu de cara com ela.
Ficou apaixonado e resolveu que tinha de fazer alguma coisa a respeito. Achou que seria uma boa idéia ficar amigo do zelador.
Mas ele não era um homem simpático. Tinha motivos para isso: não dava para ficar sempre sorrindo para mais de 200 pessoas que moravam ali apenas para atazanar a sua vida.
Por isso, Alberto se deu mal quando sugeriu ao zelador que ele colocasse na portaria um livro de reclamações, para, como disse "tornar as relações entre administração e condôminos mais abertas e civilizadas".
- Fale com o síndico, eu é que não quero me meter nesses assuntos - encerrou a conversa o mal-humorado zelador.
O moço do 21 pensou que poderia usar outra tática para se aproximar do zelador - e, dessa forma, ficar mais perto do verdadeiro motivo das suas constantes preocupações.
Inventou que a descarga de seu apartamento não estava funcionando direito.
- Isso não é problema do condomínio. Você tem telefone, chame um encanador - limitou-se a dizer o seco e definitivamente azedo zelador.
Alberto não desistiu. Cair nas graças da Ritinha - esse era o nome da filha do zelador - valia um esforço extra. E uma mudança radical de estratégia.
Tomou então toda a coragem do mundo e, coração aos pulos, apertou a campainha do apartamento do zelador.
Foi o próprio que atendeu.
- O que o sr. quer? Estou em hora de almoço.
- Desculpe, mas preciso perguntar uma coisa para o senhor. Não tem nada a ver com o condomínio. É pessoal...
O zelador fechou ainda mais a cara. Mesmo assim, foi condescendente:
- Pois pergunte logo, que eu preciso terminar o almoço.
Alberto sentiu que não podia mais recuar. Aquela era a sua hora da verdade. O momento que podia decidir seu futuro, sua vida.
- Eu quero saber se o senhor se incomoda de eu pedir para a Ritinha me ajudar a escolher um presente para a minha mãe, que faz aniversário. Estava querendo dar um perfume para ela, mas o senhor sabe, homem não sabe comprar essas coisas.
Falou e se preparou para o pior. Mas aí aconteceu algo que nem os astros podem explicar. Aquele zelador tão antipático, tão seco com todos do prédio, virou o rosto e chamou alto:
- Ritinha, vem cá. O moço do 21 quer falar com você.
E foi embora.
Quando Ritinha apareceu na porta, Alberto ficou mudo e assim permaneceu toda a sua vida em comum com a filha do zelador, a mulher mais bonita do condomínio.

CORAÇÕES SOLITÁRIOS


Na véspera do Dia das Mães se aventuraram no shopping.
Muitas lojas depois, entraram naquele enorme magazine que anunciava preços até "30% off".
Havia gente demais, ofertas tentadoras demais.
Ela abriu caminho pela seção de roupas femininas.
Ele desbravou o de utilidades domésticas.
As pessoas eram tantas e os cartazes tão convincentes que, passadas duas horas,
ele,
dor nas costas, resolveu dar por encerrada a expedição por panelas, travessas, pratos;
ela,
cabeça a latejar, achou que iria sufocar se continuasse a experimentar blusas, calças, pijamas;
e assim, como por encanto, os dois se viram face a face na enorme fila única do caixa.
E já que eram dois sobreviventes, deram as mãos e foram embora, felizes por terem enfim se encontrado.

COISA DE ARTISTA


Sexta à noite, casadinhos de novo, programa no restaurante mais chique do bairro. Caro que só vendo. Cedo ainda, primeiros a chegar. Mesa de canto, cardápio na mão, filé ao poivre para ele e salada tropical para ela - comia pouco, fazia regime. 
Tomavam o primeiro gole da cerveja quando a atriz de novela entrou, de mãos dadas com um rapaz loiro, novinho, novinho. Sentaram no canto mais escuro do lugar. Pareciam fregueses habituais - o maitre até brincou com os dois.
Neusinha não aguentou:
- Ela é mais bonita ainda ao vivo. morrendo de vontade de pedir um autógrafo.
Carlinhos não deixou:
- Deixa de ser tonta. Parece caipira. 
Mas não desgrudava os olhos daquela beleza.
O filé estava mais ou menos.
Na salada faltou o melão.
A artista e o loirinho bebiam vinho. Uma garrafa inteira. Pediram outra para o garçom.
- Carlinhos, vai, me deixa eu ir lá antes que o restaurante encha. Juro que só vou cumprimentar.
- Você é boba mesmo. Não tá vendo que vai estragar o clima deles.
- Mas eu vou de qualquer jeito!
E se levantou.
Foi quando a mão do loirinho derrubou a garrafa de vinho recém aberta e a blusa imaculadamente branca da atriz da televisão ficou vermelha e o seu rosto também mudou de cor e até o alto falante que tocava aquela música de orquestra emudeceu quando naquele salão quase vazio a voz estridente da moça se impôs numa falta de educação nunca vista naquele lugar brega chique:
- Seu burro, olha o que você fez. cheia de você!
Neusinha, que já estava em pé, desabou na cadeira.
Carlinhos chamou o garçom que tentava se manter indiferente à cena.
- Me vê a conta, por favor.
Pagou, pegou a mulher pela mão e só abriu a boca quando deu partida no carro:
- E ainda me cobraram R$ 6 pelo cafezinho!

Verdadeiro falso amor


Ela não ligava em desfilar com a bolsa Louis Vuitton forrada com pano sintético que o namorado lhe deu num chuvoso domingo pleno de romantismo em que assistiram juntinhos ao último filme do Brad Pitt com a Angeline Jolie.
Ele vestia com orgulho a camisa polo com o jacaré da Lacoste de rabo reto que ganhou dela naquele seu aniversário de 20 anos que comemoraram com cerveja estupidamente gelada e batatas fritas num barzinho da Vila Madalena . 
O amor dos dois era verdadeiro - e só isso importava.

Currículo com foto e capricho

Dezoito anos recém completados, a indecisão sobre o que fazer da vida e a necessidade de ajudar a casa, a mãe, dona Lindinha, cheia de achaques, o pai, seu Oswaldo, à beira de uma aposentadoria inglória, o irmão, Waltinho, às voltas com a oficina mecânica e as contas sempre a pagar.
Quanta responsabilidade!
Foi então que Soninha tomou uma decisão.
Iria trabalhar.
Secretária, recepcionista, quem sabe vendedora de uma butique de luxo.
Pediu conselhos para as amigas, chegou até a telefonar para dona Alzira, ex-professora que era como sua madrinha.
E assim, com toda essa ajuda, preparou um currículo caprichado.
Não esqueceu de acrescentar um toque pessoal:
"Alegre, comunicativa, simpática e de fácil relacionamento."
Leu e releu. Mostrou para a mãe - teve vergonha de levar para o pai.
Dona Lindinha até que gostou, mas fez, séria, uma observação:
- Põe uma foto sua, Soninha. Vai ajudar, você é tão bonita...
Soninha pensou, pensou e achou que era uma boa ideia.
Betinho, o rapaz do 75 que tinha uma queda por ela, foi quem tirou a foto.
Fez pose de moça séria, deu um sorriso cheio de esperança.
Faltava apenas mandar o currículo.
Betinho ajudou também nisso: tinha computador e foi fácil arranjar uma lista de empresas, do comércio, de advogados, médicos, dentistas, todo mundo da cidade que pôde encontrar.
E o currículo entrou na rede.
Dia seguinte, Soninha, com o coração batendo mais forte, abriu seu e-mail no computador da lan house do bairro.
Duas mensagens.
Uma pedia que ela fosse, na terça-feira, a uma entrevista numa fábrica de autopeças que ficava do outro lado da cidade. Recepcionista. Tinha boa chance de conseguir o emprego.
Foi a outra, porém, que mudou sua vida.
"Soninha, você é linda. Não sei dizer mais nada além disso. Quero muito conhecê-la. Sou solteiro, bispo da igreja evangélica Deus na Terra, da Vila Bueno. Acho que você é a resposta às minhas preces. Eu só peço que você responda a este e-mail. Precisamos nos encontrar. Um beijo do sempre seu, Luís."
Anexada à mensagem estava uma foto do bispo Luís.
Soninha respondeu - com alguns erros, perdoáveis, de digitação -, marcou um encontro e viu que a foto do bispo Luís não lhe fazia justiça. Era mais velho pessoalmente, mas muito distinto.
Namoraram pouco - só seis meses. Depois se casaram.
Com as bençãos de dona Lindinha e seu Oswaldo. Até o irmão aprovou.
Mas o bispo Luís insistiu numa coisa: Soninha não tinha nada de trabalhar fora de casa.
E foi assim mesmo que aconteceu: ela nunca na sua vida inteira soube o que era isso.

Luisinho atrasa as contas

A fila do banco chegava quase na porta giratória. Só 20 minutos depois de avançar uns cinco metros em direção aos caixas foi que viu que apenas dois estavam abertos. 
Na verdade, um só: o outro era para idosos e gestantes. A atendente lixava as unhas, sem mais nada para fazer. 
Com a cabeça pesada, os pés inchados, o suor escorrendo do rosto e manchando a camisa, as costas doendo, achou que não ia aguentar. 
Saiu da fila, virou à esquerda e, ao avistar dois rapazes batendo papo em suas mesas, perguntou, com o que restava de suas forças:
- Por favor, quem é o gerente da agência?
Um deles se dignou a olhar aquela triste figura e respondeu, com uma voz fininha, chata e petulante:
- O gerente está almoçando. Volta só às 14 horas.
Seu relógio marcava meio-dia e vinte. Definitivamente, não ia conseguir esperá-lo.
Arriscou uma reclamação:
- Quer dizer que não tem ninguém que possa dar ordem para abrir mais caixas? Olha só o tamanho da fila...
Aí foi a vez do outro rapaz. Voz mais grossa e entonação ainda monótona, arrogante:
- O senhor não vê que estamos em horário de almoço?
E virou as costas para continuar a conversa.
Foi o que bastou para que Luís Carlos Almeida de Souza, que todos de sua vizinhança e do seu trabalho conheciam como Luisinho, um sujeito pacato que só saía do sério quando o Santos perdia e os amigos resolviam lembrá-lo do vexame, esquecesse das lições de sua mãe sobre como era feio falar palavrão - e da surra que levou certa vez de seu pai por ter dito que aquela novela da Globo que o impedia de ver um superfilme de bangue-bangue na Record era uma "merda".
Bem, isso havia ocorrido muito tempo atrás. 
Naquela agência bancária pequena, abafada e calorenta, ele não repetiu, para todos os que ali estavam, aquelas bobagens de criança.
Para um adulto como ele, vivido, cada vez mais cansado e dolorido, "merda" era pouco. 
As sete pragas do Egito saíram de sua boca como uma tormenta, um vendaval, um maremoto, um furacão - como a lava de mil vulcões, as chamas do inferno.
As contas da luz, da água e do telefone iam atrasar de novo.
Besteira. 
Valia mais aquela estranha sensação que o abrigou no resto do dia. Algo tão forte que até sua mulher, geralmente tão alheia à sua intimidade, reparou:
- Nossa, Luisinho, que é que você tem? Hoje você está tão diferente...

Morto de medo

Tinha medo de tudo.
Escuro.
Sol.
Barata.
Sangue.
Trovão.
Menino que anda de bicicleta e
menina que atravessa a rua sem olhar para o lado.
Cresceu de susto em susto,
fantasma,
cruz credo,
assombração,
filme de terror,
drama,
suspense.
Só via comédia.
Numa noite escura ficou sozinho no ponto de ônibus e
era tarde e
não passava ninguém e
estava frio e
ventava muito e
começou a chover e
um táxi virou a esquina e 
chegou devagarinho e 
foi parando e
ele ficou com medo e
e seguiu apressado para qualquer lugar,
quase correndo, a água a gelar seu corpo.
Pegou um resfriado 
que virou pneumonia e
o resto vocês podem muito bem
adivinhar o que aconteceu.

Dedo duro

Começou cedo.
Quando a professora quis saber quem havia soltado aquele peido estereofônico, foi o primeiro a dizer:
- Não fui eu. Foi o Zezinho.
E apontou o magricela com seu indicador pequeno e raquítico, duro e incisivo.
Ao episódio sonoro sucederam-se outros, de vários tipos e único gênero.
Numa vez falou para o pai que a Inezinha, sua irmã, passava no shopping as tardes em que deveria estar estudando.
Noutra contou para a mãe que viu o pai parar o carro na esquina e dar carona para a Betinha, a moça loira e bonita do terceiro andar.
Acostumou-se com a delação.
Fez dela um estilo de vida - cômodo, prático, eficaz.
Degrau a degrau, escalou metodicamente posições que o levaram a ser tudo o que sempre quis: viver a tranquilidade dos sem-consciência.
Era apontado pelos vizinhos como modelo a ser seguido.
Só uma vez teve as convicções abaladas.
O filho, adolescente quieto, chegou em casa com a cara inchada, a orelha amassada, o olho fechado.
- Fala quem foi que fez isso, fala de uma vez!
E o garoto quieto.
- Fala que eu entrego esse filho da puta pra polícia!
E nada, nadinha de nada, nem uma palavra.
Nunca entendeu a razão do silêncio, nem soube de nome nenhum.
Mas sempre quis apontar o filho para todos e gritar, o coração explodindo de orgulho:
- É o meu garoto, ele sabe ficar quieto!

Pintor de paredes


Olhou a mancha feia no meio da sala e avisou a dona da casa:
- Vai precisar de três mãos.
A mulher não gostou:
- Bobagem, duas tá bom demais.
Resolveu não brigar:
- A senhora manda.
E atacou com vontade as paredes.
Duas mãos de tinta depois, a mancha continuava lá. Fraquinha, mas lá.
- Eu não disse? - falou o pintor.
A dona da casa não deu o braço a torcer:
- Não gostei da cor. Ficou muito clara. Vamos mudar.
O pintor gastou mais dois dias e mais duas mãos de tinta para deixar a sala roxa.
Um horror.
- Ficou ótimo - falou a mulher.
Mas ele não escutou. Olhava uma mancha no teto do corredor.
Outra danada que só ia sair com três mãos de tinta.

Supermercado


-Próximo.

e não foi uma sacanagem o que ela fez comigo não foi uma baita duma trairagem nem precisavam ter me falado que eu ia descobrir mais dia menos dia tava na cara que aquelazinha ia me passar pra trás

-Próximo.

mas mesmo assim ela devia ter tido a coragem de me contar que eu era apenas mais um na fila

-Próximo.

moça eu tô com pressa não dá pra perceber

- Quarenta e cinco reais e doze centavos. O senhor achou tudo o que procurava?

-Tudo, tudo. Pode ser o viseletron?

- Por favor, digite a senha.

- Não tem outro saquinho?

- Próximo.

e quando eu penso no que ela me fez me dá vontade de esganar aquela dona ops onde botei minha carteira acho que esqueci no caixa

- Moça, devo ter esquecido... Ah! É essa mesmo, muito obrigado, viu.

- Não tem de quê. Próximo.

até que ela é bonitinha se eu a convidasse

- Escuta, você sai a que horas?

- Próximo.

que fase vou é tomar uma cerveja pra levantar o moral

TV a cabo


Começou a correr as estações do número 01 ao 250.

Encontrou 12 reality shows,
10 talk shows,

17 filmes B/C americanos com sangue, gritos, tiros, socos, beijos, pontapés e muitos, mas muitos, efeitos especiais,

8 telejornais repetindo todos exatamente as mesmas notícias,

13 desenhos animados zumplaftbumtchan,

dezenas de comerciais de cerveja/bancos/carros/desodorantes estrelados por cachorros/loiras/morenas e mais cachorros/loiras/morenas,

14 cultos evangélicos fora-demônio-eu-te-ordeno

e apenas 2 missas católicas o senhor é meu pastor e nada me faltará,

7 mesas-redondas de futebol com ex-jogadores gordos e carecas e jornalistas de peruca e cabelos pintados de preto,

5 reprises de jogos de futebol dos campeonatos acreano, sul-matrogrossense, goiano, capixaba e paraibano,

3 jogos de futebol ao vivo dos campeonatos da Letônia, Ilhas Faroe e Quirsquistão,

e foi aí, exatamente quando o goleiro gordo e baixo do time de vermelho e branco tomou um frango que desligou a TV
e foi dormir,

com o sensação do dever cumprido.

ZZzzzzZzzZZzzzzzzzzz

Bolo de feijão


- Sai dois "chope" para a 21.
- Uma coca diet para a 18.

- Uma "malzebier" para a mesa 7.

A mulher gorda da mesa 6 se entusiasmou com o carrinho de sobremesas que passava impávido exibindo guloseimas coloridas.

O garçom nem precisou oferecer.

- Me dá um pedaço do bolo de chocolate. E um de torta de morango.

Na mesa ao lado, o casal escutou o pedido, mas se conteve. O filho, não:

- Mãe, por que eu tenho de comer arroz, feijão e batata frita? Assim eu vou ficar sempre pequeno.

O pai e a mãe pagaram a conta em silêncio.

Hipocondríaco

Como era ainda cedo para voltar ao trabalho, resolveu dar uma passada na farmácia da esquina para conferir as novidades.

Estava bem abastecido de analgésicos e antidiarréicos. Os remédios para o estômago ainda davam bem para umas duas semanas. Também não precisava do antialérgico.

Na gôndola dos produtos naturais, um guaraná composto chamou a sua atenção. Seria bom nos dias de desânimo.

Ao lado, as vitaminas prometiam novidades. Alarme falso. Nada que não conhecesse.

Meio desapontado, foi para o caixa. Pagou com dinheiro, pegou o troco, e, quando estava para atravessar a rua, ao virar a cabeça para ver se vinha algum carro, sentiu uma dorzinha no pescoço. Quase um torcicolo.

Deu meia volta e entrou feliz na farmácia para comprar uma pomada com anti-inflamatório.

Parabéns pra você


No mês, o Parabéns Pra Você já havia sido cantado oito vezes no escritório.


Foram cinco bolos de chocolate com morango, dois de brigadeiro e um de coco - coberto com chocolate.


Naquela terça-feira, quando mais uma vez todos se levantaram para cantar novamente o Parabéns e comer - outra vez - bolo de chocolate, seu Messias, no alto de seus 71 anos, mais de 40 de casa, não aguentou a parada.


Balançou a cabeça, guardou a caneta na gaveta, pegou o envelope do Lavoisier e saiu da sala rumo ao Departamento Pessoal com uma só idéia.


O exame de sangue era claro e taxativo. Glicose alta demais. Açúcar, nem pensar. E, na sua idade, abandonar o vício era impossível.


Melhor partir para a aposentadoria.

De carne e osso

Era um mulherão de fechar o comércio. Longos cabelos morenos, sobrancelhas negras, seios cujas formas voluptuosas a blusa amarelinha deixava adivinhar, calça de jeans apertada, justinha, uma perfeição só.
O caixa do banco estava de olho nela fazia bem uns 15 minutos. E contava os segundos para atendê-la.
Finalmente, ela ficou na frente dele, olho no olho, aquela boca carnuda a menos de 30 centímetros da sua boca atônita.
- Pois não - quase gaguejou de tanta emoção, o coração aos pulos, descontrolado.
- O senhor pode depositar esse cheque? Cai na conta hoje? - perguntou, com uma voz de criança, fininha, sem entonação e nenhuma graça.
- Cai, sim - respondeu o caixa, aliviado por ver que a sua deusa era apenas só mais uma mulher.
E antes de chamar o próximo cliente, viu que o relógio da parede marcava 11 e 15 e ele tinha ainda um longo dia pela frente.

Deus desce à Terra

Assustado com notícias de que muitos habitantes da Terra não só já questionavam a sua existência, mas até faziam troça dela, devido, principalmente ao estado desolador das coisas no minúsculo e insignificante planeta, Deus achou que precisava resolver logo esse problema. Convocou uma coletiva de imprensa na sede de sua empresa, no Vaticano.
Quando entrou na sala, ficou intrigado com o pequeno número de repórteres presentes. Chamou seu agente terrestre de lado e perguntou:
- Papa, que história é essa? Não tem quase ninguém aqui! O sr. tem certeza que divulgou mesmo a minha entrevista? Isso é um absurdo!
O papa, constrangido e envergonhado, ainda teve forças para dar uma resposta:
- Eu fiz o que pude!
Deus nem escutou, abandonou o seu representante e, com passos furiosos, dirigiu-se ao microfone instalado numa mesa retangular de madeira maciça naquela imensa sala de seu palácio terreno.
- Vamos logo com isso que eu tenho mais coisas a fazer - disse, com a autoridade de quem está acostumado a mandar.
Como um prolongado silêncio se seguiu a essa frase, foi obrigado a continuar:
- E então, ninguém tem pergunta nenhuma a fazer? É bom aproveitar esta oportunidade, porque não é sempre que eu venho aqui nesta porcaria de planeta. Aliás, só desci aqui desta vez porque recebi relatórios preocupantes. Parece que andam falando que me afastei do comando do meu negócio e assim achei melhor resolver tudo de uma vez.
Uma mão solitária se ergueu entre a meia dúzia de pessoas sentadas na improvisada platéia daquele salão reluzente de dourado:
- Eu tenho uma pergunta, sim - disse um jornalista que usava óculos e tinha uma barba rala.
- Pois fale logo - trovejou o cada vez mais irritado Deus.
- Como é que vamos saber se você é mesmo Deus? Pergunto isso porque estamos aqui vendo uma pessoa igualzinha a nós, só que muito mais mal humorada...
- Próxima pergunta - cortou Deus, dando um murro na mesa.
Mais de dez segundos se passaram para outra mão, de uma moça morena de traços orientais, se levantar:
- Se você é mesmo Deus, dê provas disso agora e faça um milagre para a gente ver - falou em tom atrevido.
A esse desafio se seguiu um rumor generalizado, só desfeito quando Deus ficou de pé e fez um amplo movimento com os braços, como se estivesse regendo uma orquestra invisível. Um estrondo foi ouvido, o salão ficou imediatamente tomado por uma névoa vermelha e centenas de pombos escreveram no ar a frase "deus existe!"
Os repórteres se olharam, a princípio com um ar intrigado, até que o salão foi tomado por sonoras, soltas e quase incontroláveis risadas.
Deus se virou para seu agente, que durante toda a coletiva havia permanecido a cerca de dois metros atrás dele, de cabeça baixa. Sem esconder a perplexidade, perguntou:
- Mas que diabos é isso? Essa gente ficou louca?
Enquanto o papa balbuciava palavras incompreensíveis, abafadas pelo riso que ia se extinguindo aos poucos, o repórter que havia feito a primeira pergunta se encaminhou para a mesa, apertou a mão do já atônito Deus e falou, se despedindo:
- Olha, não sei quem você é, mas até que valeu a pena vir até aqui. Fazia tempo que eu não me divertia tanto. O truque das pombas foi bem legal. Faltou só um detalhe para eu dar nota 10 a ele: Deus é com o "d" maiúsculo.
Foi embora, de braços dados e conversando animadamente com a morena de traços orientais. Japonesa? Coreana? Tailandesa? Provavelmente chinesa.
E a Terra continuou a girar e a girar e a girar, incansavelmente.

É campeão!


- E goool!!!
Batido o último e definitivo pênalti, Romualdo gritou, pulou, cantou e saiu do estádio com a multidão de torcedores inebriados.
Entrou no carro, engatou a primeira, a segunda, a terceira e quando viu, estava no meio do trânsito buzinando e buzinando ao ritmo do "é campeão!" que ouvia dos alucinados passantes vestindo a camisa branco e preta de seu time, seu amor, sua vida.
Mas a comemoração não podia parar aí. Precisava de mais, muito mais. Quando viu o quarteto de colegas do trabalho sambando na calçada, não teve dúvida, quase os atropelou para depois convidá-los:
- Vamos beber que o timão merece!
E foram os cinco para o boteco mais perto que encontraram. Nada de cerveja, nem cachaça. Uísque à vontade.
Depois de deixar os quatro no ponto de ônibus, calibrado por cinco doses de Passport, seguiu para casa, ainda buzinando.
Largou o carro na rua mesmo. Pulou a mureta do jardim, abriu a porta sabe-se lá como e se jogou no sofá.
Sentiu um calor repentino correr o corpo inteiro. Levantou e abriu a janela da sala. Respirou o ar frio da madrugada uma, duas, três, várias vezes. A cabeça girava, o estômago começava a embrulhar, mas mesmo assim encheu o pulmão e gritou, com toda a força que tinha:
- Campeão! É campeão!
Ao silêncio que se seguiu, dois cachorros latiram, um gato miou e, antes que fechasse a janela e caísse no carpete sujo da sala, ouviu o vizinho da frente protestar:
- Corintiano filho da puta! Deixa a gente dormir!

O homem insignificante


1
Não era baixo nem alto. Nem gordo nem magro. Não ganhava bem nem mal. Classe média, sustentava a família - mulher e filho - morando num apartamento de dois quartos, 55 metros quadrados, num bairro da periferia, comprado com a ajuda do sogro e do dinheiro do FGTS.
Almoçava fora de casa, ia ao trabalho no Palio 99 que levava uma vez por ano ao mecânico - de confiança - perto da padaria. Voltava só depois das 8 horas da noite. Comia alguma coisa que a mulher tinha feito no almoço, via o Jornal Nacional, lia a Folha, que comprava religiosamente na banca perto do emprego.
Dormia um sono agitado, tinha a pressão alta, mas não consultava nenhum médico. Preferia o remédio que o farmacêutico lhe vendia, com a garantia de que era um lançamento, tiro e queda e tal. Consultava a bula e fingia sacar tudo aquilo que as letrinhas prometiam e advertiam.
2
O dia em que voltou para casa com o coração disparado, quase na boca, a adrenalina solta no corpo cansado, começou com nuvens e terminou com chuva.
E foi a chuva a responsável por tudo.
Se o asfalto da rua do posto de gasolina onde, por R$ 60 mensais guardava seu Palio, estivesse seco, talvez,
muito provavelmente,
com certeza absoluta,
aquele Gol verde tivesse parado apenas poucos metros depois de ter as rodas travadas pela ação instintiva do seu motorista que meteu o pé no freio quando o moleque largou a mão gorducha da mãe e correu desembestado sabe-se-lá-para-que-direção apenas que era para onde não deveria ir ou seja:
o meio da rua com o asfalto molhado e escorregadio.
A buzina estridente fez com que virasse a cabeça para a esquerda e fosse atingido de frente por pingos d'água agressivos e gelados. Aí, nesse instante, seu olhar se congelou numa cena de cinema, uma tragédia descolorida pelo anoitecer precoce devido às nuvens opressivas daquele dia úmido.
pensou
não pensou
e se atirou com toda a força que pôde ao encontro daquela figurinha de vermelho e verde e tão viva que se movia como um personagem desarticulado de desenho animado.
3
Ao tocar a campainha do apartamento no sexto andar não esperava que sua mulher fosse se atirar em seus braços e dizer eu te amo como nos filmes.
Nem que seu seu filho viesse lhe contar que era o melhor aluno da escola que custava mais que o salário mínimo por mês e não tolerava mensalidades atrasadas.
Nada disso.
Sabia que naquela noite o sofá desbotado,
as cadeiras meio bambas,
a parede de cor indefinida,
os talheres gastos,
o prato lascado,
a comida insossa,
as notícias velhas da televisão e do jornal
e até mesmo o beijo mecânico de sua mulher murcha e sem graça e a indiferença ingênua de seu filho raquítico e pálido
teriam um gosto único e especial.
Porque naquela noite ele não era o homem insignificante que acostumara toda a sua vida a ser.